Quando o ano acabou, ele chorou.

Antes da meia noite já estávamos na janela esperando para ver os fogos de artifício. Ele correu para buscar a câmera fotográfica que ganhou do avô. Queria fotografar os fogos. Assim que os sinos anunciaram o ano novo, os vizinhos começaram a soltá-los. Tudo muito caseiro, mas bonito e divertido. No céu tinha a lua minguante quase cheia ainda. Foi uma noite bonita e iluminada. Corríamos de uma janela a outra mostrando a ele os melhores ângulos para as fotos. Até nos esquecemos de desejar feliz ano novo exatamente na virada. 😬 Mas assim que os fogos acalmaram (cinco minutos depois da meia noite…) nos abraçamos e comemoramos. Ele olhou as fotos que tinha feito e parecia que algo estava errado. Achei que não tinha gostado delas. Pedi para olhar. Muitas estavam bonitas e nítidas. Falei a ele, mas ele resmungou algo sem paciência e então achei que ele estava nervoso. Deitei na cama e perguntei se ele queria deitar um pouco perto de mim. Ele veio e ao se aconchegar começou a chorar. Um choro contido, meio sufocado, mas que precisava sair. Perguntei:

– Filho, o que aconteceu? Você está nervoso?
– Não estou nervoso. Estou triste. – ele respondeu enquanto chorava.

E então perguntei se ele sabia o porquê. Foi então que entre soluços ele me surpreendeu:

– Porque o ano acabou, mamãe. O ano acabou e nunca mais vai voltar. Este tempo não vai mais voltar.

Eu entendi no fundo da minha alma a dor dele. Entendi porque essa dor também já foi minha quando criança. Ter dimensão do tempo faz uma criança se sentir frágil. E é preciso respeitar esta fragilidade porque ela é, na verdade, uma pré constatação da nossa finitude. Senti que naquele momento eu não precisava acelerar o processo dele.

Acolhi, abracei e disse a ele:

– Você tem toda razão. É mesmo triste que um ano em que fomos tão felizes se acabe. Tantas coisas boas aconteceram na nossa vida, não é mesmo? Mas sabe o quê? Está começando um ano novinho e a gente pode também escolher e fazer que ele seja um ano muito bom. A gente é quem planta as sementinhas do ano. Então a gente vai combinar de escolher umas sementinhas de luz bem brilhante, pra gente ser muito feliz neste ano também. ⭐

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Maila Couti

Maila Couti

Eu gosto de experimentar a vida e o mundo. E gosto de fazer o exercício da escrita para deixar registrado o que aprendo no papel.

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